segunda-feira, 11 de dezembro de 2017


Antonio Aleixo (1899-1949)  foi um poeta português popular, marcado pela crítica social e ironia. Possuía uma rara espontaneidade, viveu em meio a pobreza e dificuldades. Faleceu em decorrência de uma tuberculose, que também havia tirado a vida de uma de suas filhas. 



Ao ver um garotito esfarrapado
Brincando numa rua da cidade,
Senti a nostalgia do passado,
Pensando que já fui daquela idade.

Que feliz eu era então e que alegria...
Que loucura a brincar, santo delírio!...
Embora fosse mártir, não sabia
Que o mundo me criava p'ra o martírio!

Já quando um homenzinho, é que senti
O dilema terrível que me impôs
A torpe sociedade onde nasci:
— De ser vítima humilde ou ser algoz...

E agora é o acaso quem me guia.
Sem esperança, sem um fim, sem uma fé,
Sou tudo: mas não sou o que seria
Se o mundo fosse bom — como não é!

Tuberculoso!... Mas que triste sorte!
Podia suicidar-me, mas não quero
Que o mundo diga que me desespero
E que me mato por ter medo à morte...
António Aleixo, em "Este Livro que Vos Deixo..."


Relacionando o poema com nosso contexto atual:
O autor, no poema, deixa claro que não seria o mesmo se o mundo fosse bom, assim entendemos que na nossa realidade atual tudo seria diferente se fossem moderadas as estatísticas dos inúmeros males que nos assombram. Se fossem mais próximas a nós as oportunidades de compactuar com boas ações, e não serem apresentadas tão cedo a realidade cruel a longo prazo, mas por hora fácil e uma falsa beneficiadora.
Também fala da inocência das crianças, como tudo é bonito e não imaginam como a vivência pode ser difícil ao tomar certa idade. Ao final da estrofe nos deixa a reflexão: “De ser vítima humilde ou ser algoz...”, como sendo um dilema a ser enfrentado, que cabe perfeitamente aos dias atuais: ser humilde e por vezes sentirmo-nos injustiçados, ou colocar-se na posição de algoz e ir contra nossos sentidos éticos, morais, dentre outros. 

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